fim

 

Queria um fim do mundo solitário, como já estava acostumada. Desligou o telefone, tirou o interfone do gancho, não abriu a porta pra ninguém. Já tinha se programado: passaria o fim do mundo sentada na varanda, com uma garrafa de vinho e observando. Só queria observar.

Pensou em fazer uma lista de tudo que não tinha feito e ir realizando desejos e sonhos antigos. Mas… pra que? Achou triste ver no papel tudo que não tinha feito. Pra que esfregar na própria cara o quanto sua vida tinha sido morna e sem graça? Pensou em procura-lo e dizer que, mesmo depois desses anos todos, ainda prendia o ar toda vez que passava por alguém que usasse aquele perfume. Mas achava patético ser uma dessas romântica de fim do mundo. O melhor mesmo era ficar ali, contemplando o fim. Sozinha.

Já estava na segunda garrafa quando sentiu a terra tremer. Teve medo no começo, mas já estava tão dormente de vinho que se encheu de paz. Abriu os braços, rodopiou até a sala e caiu gargalhando no sofá, bem ao lado do telefone.

Acordou com aquele perfume tão familiar, mas já não precisava mais prender a respiração. Naquele dia, não foi o mundo que acabou e sim a solidão naquele pequeno apartamento no quarto andar.

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