outros carnavais

Nosso último adeus foi naquele carnaval. Antes desse, tínhamos dados tantos outros – todos gritados, esbravejados, chorados – que achei que tudo ficaria sempre no até logo. Mas não. Naquele carnaval houve um adeus silencioso. Um adeus definitivo. Fui embora sem dizer uma palavra. Naquele carnaval, você arrancou de mim a peça que fazia aquele quebra-cabeça surreal fazer sentido. E todo mundo sabe que não dá pra montar um quebra-cabeça sem um peça. O incompleto sempre causa angustia. Pra não ficar pra trás, arranquei o cordão – aqueles bobos de cara-metade – do meu pescoço e joguei no chão daquela ladeira lotada. Me deu uma alegria mórbida ver a tua metade sendo pisoteada por foliões embriagados de bebida e prazer.
Desde então, tentamos muitos olás, mas nada tão consistente que nos dê a chance de temer o adeus. Desde então, é sempre um olá seguido de um até logo murcho, um até logo que pode muito bem esperar anos por outro olá.
Eu sei que as peças ainda estão comigo (tenho mania de guardar quase tudo) e que você guardou a peça que falta. Sei que você pensa em me devolver. Fico feliz com isso. Mas saiba que já espalhei tudo (nunca consegui manter as coisas no mesmo lugar por muito tempo) e não tenho vontade de monta-las sozinha. Se for me dar a peça que falta, me ajude a juntar as outras e saiba que qualquer amassadinho pode dar problema no encaixe. Senão, adeus!

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