Aparando as pontas

De uns tempos pra cá ela conseguiu admitir pra si sua paixão pelas palavras. Pela escrita. Decidiu que era isso que queria: escrever. E assim começou. Cada dia um pouquinho, cada pouquinho uma alegria, uma liberdade. Cada palavra pensada era imediatamente passada para o mundo real. Escrita.

Escrevia para o nada e sobre tudo…ou sobre nada. Mas uma coisa a angustiava e tornavam essas letras e palavras que iam se formando – ah como era bonito tantas letras juntinhas formando essas palavras – em simples linhas. Em palavras que eram somadas a outras palavras que tentavam formar uma história, mas que, para ela, só se tornavam um monte de palavras juntas flutuando num novo documento do word. Escrevia para contar, mas não contava o que queria escrever. Faltava coragem para escrever o que se quer e para quem se quer. Mas não escrever é uma forma de não sentir, de não viver, de não sofrer, ela pensava. Enquanto as palavras estão guardadas, está tudo seguro. Coloca-las para fora exige tempo,  memoria, lembrança. Exige sentir. Exige coragem.

E num dia desses – um dia qualquer, desse sem data especial marcada no calendário – se arrumando para sair, para viver novas historias, se arrumando para seguir, mais um dia, em frente, se viu parada diante do espelho. Se demorou mais do que de costume nessa tarefa. Olhou tudo meticulosamente. Algo não a agradava. Não era a roupa, o sapato ou a falta de blush. Era o cabelo, ou melhor: as pontas do cabelo. “Preciso cortar  essas pontas”. Foi o que eu pensou já procurando uma tesoura. Volta para frente do espelho, tesoura em mãos e lembrou que muitas pontas de cabelo foram cortadas desde….desde o fim. Se assusta com aquela lembrança. Se dá conta que os pensamentos estão todos lá, que nunca esqueceu. Se pergunta se já foi o suficiente. Se já cortou todos os fios que testemunharam aquele dia… Aqueles dias. Pelas  rápidas contas, ainda falta bastante. Ainda falta algum tempo até que todos os fios sejam novos e que nenhum deles tenha testemunhado aqueles dias. De alguma maneira, ela acha que as lembranças vão indo junto com os punhados cortados. Ela sabe que não faz sentido, mas o que faz sentido nessa história toda? Cortou, jogou-os no lixo dando um pequeno adeus. Abriu seu email, escreveu tudo o que tinha acontecido e sentido naquele dia tão comum e as palavras que se juntaram para terminar foram: “E agora que tudo acabou, agora que as pontas estão no lixo, que as palavras se juntam a outras num novo documento que contam a história que queria contar, posso dizer que o cabelo não ficou mais bonito, não me tornei uma escritora melhor e que a história que eu queria contar não vai pra você, mas que carrego menos testemunhas daqueles dias.” e enviou. É, ela não escreveu pra ele. Mandou para um grande amigo e achou que assim que devia ser.

Terminou de se arrumar e levou seu cabelo por aí, para testemunhar novas histórias.

 

 

 

 

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