Mania de ser gringo

Ontem ouvi a seguinte frase: “Quer trabalhar com moda? Então vá pra fora do Brasil.”.

A justificativa foi que as pessoas aqui não tem um estilo próprio, não ousam e que elas nunca vão conseguir “ser européias”. Respeito e até entendo a colocação, mas não concordo, de modo algum, com isso. Fico me perguntando: temos que ser européias? Quem disse que elas não tem estilo próprio? Por que todos tem que ser ousados? Quem decide o que é certo e o que é errado? O que é bonito ou feio? Uma coisa deixa de ser boa porque virou popular?

Generalizar e colocar todo mundo no mesmo balde é muito fácil e simplista. Concordo que é muito difícil trabalhar com moda no Brasil. Os cachês são mínimos (a maioria), ainda usamos revistas e criações gringas de referência, não temos estrutura para fazer roupas com acabamentos impecáveis e preços justos… mas tudo tem dois lados.

Temos estilistas incríveis, autorais e que trilham o próprio caminho sem ficar de “butuca” na grama dos vizinhos gringos (Alô Ronaldo Fraga, João Pimenta, Alexandre Herchcovitch, Wilson Ranieri, Walter Rodrigues…), temos editores bem bons, tantos maquiadores ótimos surgindo, produtores competentíssimos e com muita vontade de fazer coisas novas.

Sem contar que a informação de moda ficou muito mais acessível para o grande publico. Assim como ficou mais fácil copiar, também ficou muito mais fácil comparar e saber o que é original e o que é cópia e a tendência, espero eu, é que cada um procure seu caminho, seu estilo. Que busque essas informações sim, porque saber o que acontece ao seu redor é sempre importante, mas que saiba ir além.

Esse é um grande momento de investir no Brasil, de dar nossa cara (sem, necessariamente, ter fantasias, caipirinhas, mulher pelada…) para nossas roupas, eventos, publicações. Os jornalistas gringos já estão cansados de vir pra semana de moda e encontrar a mesma coisa que viu, uma temporada atrás, em Paris, NY e Londres. Eles querem coisas novas, eles querem frescor, eles querem Brasil. Nós, brasileiros, também queremos! E chega dessa história que só lá fora presta (onde é la fora mesmo?) e vamos espalhar moda e arte pelo Brasil. Vamos valorizar o que cada região tem de bacana. Vamos prestar mais atenção ao que temos e que esta melhorando muito.Vamos viajar muito pelo mundo e absorver culturas novas e conhecimentos, mas sem essa de sempre achar a grama do vizinho mais verde e com mais futuro que a sua. Porque isso, além de ser uma visão ultrapassada, te torna super cansativo. Eu acho as francesas lindas, mas somos diferentes, vivemos em climas diferentes e esta tudo bem assim.

Minha dica é: Você trabalha com moda e é bom no que faz? Então faça o que você sabe fazer aqui. Faça a diferença que, aos poucos, tudo se acerta. Sei que parece discurso entusiasmado e vazio, ainda mais de quem deixou Recife pra morar e trabalhar em São Paulo ( que é o “la fora” daqui), mas é por isso mesmo que posso falar. Vir pra cá porque em Recife não tinha mercado me fez ver o quanto é importante valorizar cada cantinho que temos e faze-lo crescer.

A outra dica é: nossa língua é tão linda, vamos ter mais carinho com ela! Sei que as vezes é tentador e fácil misturar o inglês com português, mas use com cautela. O povo do Petisco concorda.

Eu já decidi: em agosto começo minha descoberta pelo Brasil. Vai ser um sonho realizado!

 

Ah! e aproveitando esse bafafá sobre uso de peles, peço: Não faça isso. Além de todas as questões, sociais, ambientais e bregas que eu nem preciso falar, tem a questão de ser totalmente desnecessário no nosso país. Vamos combinar que temos esse frio todo? Mas quer pagar de bonita e peluda? As peles sintéticas estão aí pra te ajudar nessa questão. Se joga, gata!

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